O seguro rural no Brasil é frequentemente apontado como uma das ferramentas mais importantes para a sustentabilidade do agronegócio. Afinal, a produção agrícola é uma atividade altamente exposta a riscos climáticos, sanitários e de mercado. Mesmo assim, a adesão ao seguro rural no Brasil ainda é muito baixa, especialmente quando comparada a países com agricultura consolidada.
Estimativas do setor indicam que menos de 10% da área agrícola brasileira está segurada, enquanto em países como os Estados Unidos esse índice supera 80%. Esse cenário levanta uma pergunta fundamental: por que o agronegócio brasileiro ainda possui baixa adesão ao seguro rural?
A resposta envolve uma combinação de fatores estruturais, econômicos, culturais e operacionais que limitam a expansão do mercado.
Neste artigo, analisamos os principais desafios e discutimos o papel que agrônomos, corretores especializados e consultores do setor agrícola podem desempenhar para ampliar a disseminação do seguro rural.
A percepção do produtor rural sobre o seguro
Um dos fatores mais relevantes para entender a baixa adesão ao seguro agrícola está na própria percepção do produtor rural.
Embora a atividade agrícola esteja cada vez mais exposta a eventos climáticos extremos, como seca, geada e excesso de chuva, muitos produtores ainda enxergam o seguro como:
- um custo adicional na produção;
- um produto complexo e burocrático;
- uma proteção incerta no momento do sinistro.
Em muitos casos, o produtor só considera contratar o seguro após sofrer perdas significativas. Esse comportamento mostra que a cultura de gestão de risco ainda está em desenvolvimento no agronegócio brasileiro.
Além disso, o seguro rural é relativamente recente no país. O Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) tem menos de duas décadas de existência, o que significa que o mercado ainda está em processo de amadurecimento.
Dependência da subvenção pública
Outro fator determinante para a expansão do seguro rural é a subvenção ao prêmio do seguro, política pública que subsidia parte do custo pago pelo produtor.
Esse mecanismo é fundamental para tornar o seguro mais acessível, já que o risco climático no Brasil é elevado.
Nos últimos anos, entretanto, o orçamento do PSR apresentou forte redução. O programa chegou a superar R$ 1 bilhão em recursos em 2021, mas em anos recentes ficou abaixo de R$ 400 milhões.
Essa instabilidade gera diversos impactos:
- redução da área segurada;
- maior dificuldade de planejamento pelas seguradoras;
- retração da oferta em algumas regiões.
Sem previsibilidade no orçamento da subvenção, o crescimento do mercado de seguro agrícola fica comprometido.
Escassez de canais especializados
Um dos pontos menos discutidos, mas extremamente relevantes, é a escassez de canais especializados na distribuição do seguro rural.
Grande parte das apólices de seguro agrícola no Brasil é comercializada por meio de:
- bancos;
- cooperativas;
- instituições financeiras ligadas ao crédito rural.
Embora esses canais sejam importantes, eles nem sempre possuem equipes altamente especializadas em gestão de risco agrícola.
A presença de corretores especializados em seguro rural ainda é limitada em muitas regiões do país, o que dificulta:
- a correta orientação do produtor;
- a análise técnica das necessidades de cobertura;
- a explicação adequada das regras do seguro.
Sem consultoria especializada, o produtor tende a perceber o seguro apenas como um requisito burocrático ou um custo adicional.
Alta concentração e poucos players
Outro desafio estrutural do mercado é a alta concentração entre seguradoras que operam no seguro rural.
O número de companhias atuando no segmento ainda é relativamente pequeno quando comparado ao tamanho do agronegócio brasileiro.
Isso ocorre principalmente porque o seguro agrícola exige:
- grande capacidade de capital;
- modelagem avançada de risco climático;
- rede de peritos e agrônomos qualificados.
Como resultado, o mercado ainda possui poucos players relevantes, o que reduz a diversidade de produtos e limita a expansão para novas regiões ou culturas agrícolas.
Falta de informação e educação sobre seguro rural
A falta de informação sobre o funcionamento do seguro rural também contribui para a baixa adesão.
Muitos produtores ainda possuem dúvidas sobre aspectos fundamentais, como:
- quais eventos são cobertos;
- como funciona o cálculo da produtividade segurada;
- como ocorre o processo de regulação de sinistros.
Essa lacuna de informação gera desconfiança e dificulta a tomada de decisão.
Por isso, a disseminação de conhecimento técnico sobre o tema é essencial para fortalecer o mercado.
A necessidade de novos produtos e inovação
Além dos desafios estruturais, o setor também discute a necessidade de inovação no seguro rural.
Entre as alternativas estudadas estão:
- seguros paramétricos, baseados em índices climáticos;
- produtos mais regionalizados;
- integração entre dados climáticos, tecnologia e agricultura digital.
Essas soluções podem tornar o seguro mais eficiente, reduzir custos e ampliar a cobertura em regiões onde os produtos tradicionais ainda enfrentam dificuldades.
O papel dos agrônomos e consultores especializados
Diante desse cenário, os profissionais que atuam no agronegócio têm um papel fundamental no desenvolvimento do mercado de seguro rural.
Agrônomos, consultores agrícolas e corretores especializados em seguro rural podem contribuir diretamente para:
- orientar produtores sobre gestão de risco;
- explicar corretamente as coberturas e limitações do seguro;
- apoiar na análise técnica da lavoura segurada;
- promover uma cultura de planejamento e proteção da produção.
Um consultor comercial bem preparado consegue transformar a percepção do seguro, deixando de ser visto apenas como custo e passando a ser entendido como ferramenta estratégica de gestão agrícola.
Disseminação de informação: um passo essencial para o futuro do seguro rural
O agronegócio brasileiro é um dos mais competitivos do mundo, mas sua exposição ao risco climático continua elevada.
Para que o seguro rural no Brasil alcance um nível de cobertura mais próximo das grandes potências agrícolas, será necessário avançar em diferentes frentes:
- políticas públicas mais estáveis;
- ampliação da subvenção ao seguro;
- desenvolvimento de novos produtos;
- fortalecimento dos canais especializados de distribuição;
- educação e disseminação de conhecimento sobre gestão de risco.
Nesse contexto, a informação e a qualificação dos profissionais do setor tornam-se peças-chave para a evolução do mercado.
Quanto maior for o entendimento do produtor sobre o funcionamento do seguro rural, maior será sua capacidade de tomar decisões estratégicas para proteger sua produção.